• Document: Um certo capitão Rodrigo
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Érico Veríssimo Um certo capitão Rodrigo da Obra O Tempo e o Vento Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos. ECLESIASTES - 1, 4, 5, 6. Sumário O Sobrado - I A fonte O Sobrado - II Ana Terra O Sobrado - III Um certo capitão Rodrigo O Sobrado - IV A teiniaguá O Sobrado - V A guerra O Sobrado - VI Ismália Café O Sobrado - VII Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo 1 Um certo capitão Rodrigo Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo 2 batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido: - Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! Havia por ali uns dois ou três homens, que o miraram de soslaio sem dizer palavra. Mas dum canto da sala ergueu- se um moço moreno, que puxou a faca, olhou para Rodrigo e exclamou: - Pois dê! Os outros homens afastaram-se como para deixar a arena livre, e Nicolau, atrás do balcão, começou a gritar: - Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora! Rodrigo, porém, sorria, imóvel, de pernas abertas, rebenque pendente do pulso, mãos na cintura, olhando para o outro com um ar que era ao mesmo tempo de desafio e simpatia. Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo 3 - Incomodou-se, amigo? - perguntou, jovial, examinando o rapaz de alto a baixo. - Não sou de briga, mas não costumo agüentar desaforo. - Ooi bicho bom! Os olhos de Rodrigo tinham uma expressão cômica. - Essa sai ou não sai? - perguntou alguém do lado de fora, vendo que Rodrigo não desembainhava a adaga. O recém-chegado voltou a cabeça e respondeu calmo: - Não sai. Estou cansado de pelear. Não quero puxar arma pelo menos por um mês. - Voltou-se para o homem moreno e, num tom sério e conciliador, disse: - Guarde a arma, amigo. O outro, entretanto, continuou de cenho fechado e faca em punho. Era um tipo indiático, de grossas sobrancelhas negras e Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo 4 zigomas salientes. - Vamos, companheiro - insistiu Rodrigo. - Um homem não briga debalde. Eu não quis ofender ninguém. Foi uma maneira de falar... Depois de alguma relutância o outro guardou a arma, meio desajeitado, e Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo: - Aperte os ossos. O caboclo teve uma breve hesitação, mas por fim, sempre sério, apertou a mão que Rodrigo lhe oferecia. - Agora vamos tomar um trago - convidou este último. - Mas eu pago - disse o outro. Tinha lábios grossos, dum pardo avermelhado e ressequido. - O convite é meu. - Mas eu pago - repetiu o caboclo. - Está Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo 5 bem. Não vamos brigar por isso. Aproximaram-se do balcão. - Duas caninhas! - pediu Rodrigo. Nicolau olhava para os dois homens com um sorriso desdentado na cara de lua cheia, onde apontava uma barba grossa e falha. - É da boa - disse ele, abrindo uma garrafa de cachaça e enchendo dois copinhos. Houve um silêncio durante o qual ambos beberam: o moço em pequenos goles, e Rodrigo dum sorvo só, fazendo muito barulho e por fim estralando os, lábios. Tornou a pôr o copo sobre o balcão, voltou- se para o homem moreno e disse: - Meu nome é Rodrigo Cambará. Como é a sua graça? - Juvenal Terra. - Mora aqui no povo? - Moro. - Criador! Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo 6 O outro sacudiu a cabeça negativamente. - Faço carreteadas daqui pró Rio Pardo e de lá pra cá. - Mais um trago? - Não. Sou de pouca bebida. Rodrigo tornou a encher o copo, dizendo: - Pois comigo, companheiro, a coisa é diferente. Não tenho meias medidas. Ou é oito ou oitenta. - Ha gente de todo o jeito - limitou-se a dizer Juvenal. Rodrigo olhou para o vendeiro. - Como é a sua graça mesmo, amigo? - Nicolau. - Será que se arranja por aí alguma coisa de comer? Nicolau coçou a cabeça. Um certo capitão Rodrigo - Érico Veríssimo 7 - Posso mandar fritar uma lingüiça. - Pois que venha. Sou louco por lingüiça! O capitão tomou seu terceiro copo de cachaça. Juvenal, que o observava com olhos par

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